Disputas ideológicas: deixem Jesus fora disso!

Ideologias[6]

A figura de Cristo nunca esteve tão em evidência. Todas as ideologias querem-no como seu garoto propaganda. E assim, Sua mensagem vai se adequando à agenda política de cada grupo.

Não se trata de um fenômeno recente. O próprio Império Romano, através de Constantino, quis associar-se à imagem de Cristo. De repente, o carpinteiro de Nazaré latinizou-se, vestiu toga romana, e teve Suas palavras usadas para justificar as investidas imperiais. Sua cruz passou a ser estampada nos escudos dos soldados. “Por este sinal vencerás!” teria ouvido o imperador numa visão. A mesma cruz estampou os peitorais e escudos dos soldados que lutaram nas Cruzadas, sob o comando do Papa, sob o pretexto de se combater o avanço do Islã e recuperar territórios perdidos. À época, o pontífice romano abonou a morte de qualquer seguidor de Maomé, desde que fosse “pela causa da Santa Igreja”. Foi esta mesma cruz que estampou as velas dos navios dos conquistadores das Américas, que dizimaram povos indígenas, e pilharam impérios milenares supostamente em nome dos interesses da Cristandade.

Nem Adolf Hitler abriu mão de associar sua ideologia à imagem e mensagem de Cristo. Confira abaixo algumas de suas frases acerca da fé cristã. O Führer demonstrava acreditar que o cristianismo era “a fundação inabalável da moral e do código moral da nação”. Dizia, ainda, que o Governo do Reich estava decidido a empreender a purificação moral e política da vida pública alemã, criando e assegurando as condições necessárias para uma renovação profunda da vida religiosa. “Como cristão”, dizia Hitler, “tenho a obrigação de lutar pela justiça e justiça”. Justificando a sua pérfida luta contra os judeus, ocasionando na morte de cerca de 6 milhões deles, ele teria dito: “Hoje acredito que estou agindo de acordo com a vontade do Criador Todo-Poderoso: – ao defender-me contra os judeus, estou lutando pelo trabalho do Senhor. ” Ele se considerava um escolhido de Deus, para iniciar no mundo um período de mil anos de paz, conhecido entre os cristãos como o Milênio. Um dos símbolos usados pelo nazismo era… adivinha? A cruz. A chamada “Cruz de Ferro” também era usada como adorno em escudos e espadas dos Cavaleiros Templários.

Deu no que deu… Milhões de mortos em nome de um nacionalismo estúpido e cego.

A figura de Jesus não cabe dentro de qualquer arranjo ideológico. Sua mensagem transcende as utopias, subverte o establishment e desafia o mais insólito dos ideais humanos.

Tentar domesticá-lO é perda de tempo.

Ele não Se presta a ser garoto propaganda do socialismo, tampouco do capitalismo. Também não é cabo eleitoral de candidatura alguma. Não ousem conferir tom partidário à Sua mensagem. E duvido que Ele se prestasse a empunhar uma bandeira étnica ou homofóbica. Ele tem Sua própria agenda.

Toda vez que Sua mensagem é diluída numa ideologia qualquer, perde sua essência e eficácia.

Jesus não é nacionalista, nem comunista, nem cubano, nem americano, nem romano, ou mesmo brasileiro, como temos o costume de dizer. Ele é Deus! Rei dos reis, Senhor dos senhores. Os regimes políticos, bem como as ideologias que os justificam tendem a corromper-se, mas os ideais do Reino de Deus permanecem para sempre.
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O Evangelho segue seu fluxo pela História. Regimes tentaram represá-lo. Outros acharam que podiam encaná-lo. Outros quiseram engarrafá-lo. Mas ele segue sua própria calha, ora morro acima, ora morro abaixo, ora na superfície, ora no subterrâneo, ora caudaloso e rebelde, ora manso e tranquilo.
Cada sistema lidou com o Evangelho da maneira como lhe foi conveniente. Governos totalitaristas tentaram enjaulá-lo. Democracias procuram amansá-lo e, às vezes, levá-lo ao picadeiro para ridicularizá-lo. Alguns preferiram encerrá-lo no Museu, alegando ser coisa do passado. Mas nenhum pode ficar indiferente à sua subversividade latente.

Não queiram canonizar Karl Marx, nem beatificar Max Weber. Mas também não os demonizem. Qualquer tipo de extremismo é perigoso, pois cega o discernimento. Não comprem pacotes fechados. Atendamos à recomendação de Paulo: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Ts. 5:21). Mesmo da boca do mais perverso dentre os homens, podemos, eventualmente, ouvir algo que edifique. Assim como da boca do mais santo dentre eles, pode-se ouvir palavras destruidoras. O mesmo Pedro que ouviu de Jesus que sua confissão fora inspirada pelo Espírito de Deus, minutos depois foi repreendido por emprestar seus lábios ao maligno para dissuadir Jesus do cumprimento de Sua missão.

Algumas ideologias acertam em seu diagnóstico, mas prescrevem o remédio errado, e vice-versa. Daí o risco de associar a mensagem de Jesus a qualquer que seja a ideologia. Se falharem, será a credibilidade do Evangelho que estará em xeque.

Recentemente, o jornalista americano Joseph Lelyveld lançou uma biografia de Mahatma Gandhi em que diz que o líder indiano era gay e abandonou sua mulher para viver um tórrido romance com o arquiteto alemão de origem judaica Hermann Kalleubach. Pode ser que isso seja verdade, como pode ser que seja apenas sensacionalismo barato para alavancar as vendas do livro. De qualquer maneira, não será isso que impedirá que eu continue admirando o homem que conduziu a Índia à independência, e que é considerado o pai do pacifismo. Tenho aprendido a separar as coisas…

Tenho profunda admiração por alguns ícones da nossa história, independente do credo que confessavam, ou da ideologia que defendiam. Posso admirar seus ideais, sem com isso ser obrigado a aderir à sua ideologia. Todos esses eram pecadores, tanto quanto eu. O fato de admirá-los não significa que devo construir-lhes um altar em meu coração. O único a ocupar esta posição é Cristo. Admiro qualquer ser humano naquilo em que mais se parecem com Jesus.

Hermes C. Fernandes.



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Tadeu Ribeiro

Tadeu Ribeiro é editor-chefe e fundador do Portal do Trono. Atualmente é estudante de Direito na Universidade Federal de Campina Grande. Apaixonado por Deus, pela música e pela informação. Um chamado que está sendo atendido, e edificado milhões de vidas no Brasil e no mundo.

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