Eduardo e Mônica: o mito do jugo desigual

jugo desigual namoroUma das perguntas mais recorrentes que tenho recebido pelas redes sociais é sobre o tal “jugo desigual”. Para quem não está familiarizado com o evangeliquês, trata-se do namoro entre pessoas de credos diferentes, ou ainda, entre um cristão e um não cristão. Em alguns círculos, isso é inadmissível, e quem insiste corre o risco de ser excluído da igreja.

O texto usado para justificar tal postura está em 2 Coríntios 6:14:

“Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas?”

Para início de conversa, precisamos entender o que significa “jugo” (não confundir com “julgo” do verbo julgar). Trata-se de uma peça de madeira, um tipo de canga que se prende com correias ao pescoço de animais de carga, para que assim possam puxar uma carroça ou um arado (1 Sm 6:7). Num sentido figurado negativo, o jugo representa domínio, opressão (Gn 27.40; Jr 28.2; Gl 5.1); sofrimento (Lm 3.27); mas do ponto de vista positivo, representa comprometimento (Mt 11.29-30) e companheirismo (Fp 4.3).

É interessante notar que nenhuma das passagens acima fala de namoro ou casamento. Nem mesmo a que fala de jugo desigual. Então, em que consistiria o jugo desigual?

Geralmente, usavam-se pares de animais de carga como bois ou cavalos para puxar os arados que abriam sulcos na terra para receber as sementes. Se o jugo sobre um fosse mais pesado que sobre o outro, fazendo com que caminhassem em ritmos diferentes, o arado acabava puxado na diagonal, e, eventualmente, travava, agarrando-se ao solo. Isso, obviamente, atrasava todo o processo. Ambos tinham que caminhar na mesma velocidade, de modo que os sulcos se abrissem uniformemente nos dois extremos do arado. Portanto, os animais precisavam ter mais ou menos o mesmo porte, carregando jugos de pesos iguais.

Quando Paulo fala do jugo desigual, ele está pensando em qualquer trabalho conjunto entre seres humanos. Em Filipenses 4:3, ele pede a um “leal companheiro de jugo” que ajudasse a duas outras companheiras de ministério que atuavam naquela cidade. O que esperar de um leal companheiro de jugo, senão que caminhe na mesma direção e no mesmo ritmo, imbuído do mesmo propósito?

Obviamente, tanto o namoro quanto o casamento podem ser incluídos neste escopo. Como poderá dar certo qualquer relação em que cada um puxa o arado numa direção ou ritmo diferente? Ou como dizem as Escrituras, “andarão dois juntos se não estiverem de acordo” (Amós 3:4)?

Há que se pensar no futuro e não apenas no aqui e agora. Lembre-se que o arado prepara a terra para receber a semente e que esta, por sua vez, é a garantia de uma boa colheita amanhã. Todavia, isto não se limita à questão do credo. É possível que haja jugo desigual entre pessoas da mesma fé (1 Co.5:9-12). Há muitos tipos de jugo desigual. Diferenças culturais, por exemplo, podem ditar ritmos e maneiras distintos de se conduzir a vida. Imagine um relacionamento em que não seja possível um diálogo sobre temas de interesse comum. Poderíamos enumerar ainda as questões de faixas etárias, graus de instrução e até o fato de serem oriundos de camadas sociais diferentes.

E o que dizer da compatibilidade sexual? Quão difícil é manter um relacionamento perene em que ambos tenham opiniões e expectativas divergentes acerca do sexo. Que futuro teria uma relação em que um dos cônjuges fosse mais atrevido e o outro cheio de pudor. Um, tarado. Outro, travado. Ainda que professem a mesma fé, frequentem a mesma igreja, e até orem juntos, a tensão envolvendo a vida sexual poria em risco a estabilidade do casamento.

Só há uma maneira de se precaver sobre isso. Aproveitar o namoro para conversar tudo o que for pertinente. Beijar menos, dialogar mais. Expor menos o corpo, e mais o coração. Dizer com sinceridade quais são suas expectativas.

Há ainda casos de homossexuais que para provar sua conversão ao evangelho, casam-se com pessoas do sexo oposto, mesmo não se sentindo atraídos por elas. Isso também é jugo desigual. Pior: é de uma desumanidade inacreditável. Ninguém deveria ser forçado a contrariar sua natureza. Seria mais digno optar pelo celibato do que viver uma hipocrisia, sendo incapaz de ser feliz e de fazer o outro feliz.

O sucesso de qualquer relacionamento passa pela compatibilidade. Por isso, lemos no poema da criação que Deus daria ao homem uma mulher que lhe correspondesse, isto é, que lhe fosse compatível (Gn. 2:18). O mesmo vale para a mulher. Deus deseja dar-lhe um homem que corresponda aos anseios de sua alma e não apenas aos desejos do seu corpo.

É importante que, se possível, apreciem as mesmas coisas, os mesmos ambientes, as mesmas atividades. Caso contrário, terão poucos motivos para estarem juntos, a não ser desfrutar da companhia um do outro. Não estou dizendo que devem torcer pelo mesmo time, gostar de ver o mesmo tipo de filme ou música, mas que, pelo menos, cultivem algumas atividades em comum.

E quanto à fé? O ideal seria que professassem o mesmo credo. Isso facilitaria muito a vida, principalmente a criação dos filhos. Se, todavia, este ideal não for alcançado, deve-se acreditar que o amor que os conecta é maior do que qualquer discordância doutrinária. Vale aqui a opinião pessoal de Paulo:

“Aos outros eu mesmo digo isto, e não o Senhor: se um irmão tem mulher descrente, e ela se dispõe a viver com ele, não se divorcie dela. E, se uma mulher tem marido descrente, e ele se dispõe a viver com ela, não se divorcie dele. Pois o marido descrente é santificado por meio da mulher, e a mulher descrente é santificada por meio do marido. Se assim não fosse, seus filhos seriam impuros, mas agora são santos. Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz. Você, mulher, como sabe se salvará seu marido? Ou você, marido, como sabe se salvará sua mulher? Entretanto, cada um continue vivendo na condição que o Senhor lhe designou e de acordo com o chamado de Deus. Esta é a minha ordem para todas as igrejas.” 1 Coríntios 7:12-17.

Repare que nos dois casos, tanto do homem, quanto da mulher, são os não cristãos que devem consentir ou não no relacionamento. Então, não deveria ser um problema para nós.

Por incrível que pareça, há casos em que o jugo carregado por um cristão é mais pesado do que o carregado por um não cristão. Isso se dá porque alguns trocaram aquele “jugo suave” prometido por Jesus (Mt. 11:30), por um jugo de escravidão imposto pelo legalismo religioso. Bom seria se desse ouvidos ao que Paulo diz aos Gálatas: “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” (Gl.5:1). Com um jugo suave sobre os ombros, todo cristão vai desejar aliviar o jugo do outro em vez de adicionar peso extra.

O relacionamento entre um cristão e um não cristão não é o fim do mundo. Pode até dar certo. O que verdadeiramente importa é que haja amor. Como disse Pedro, “o amor cobre multidão de pecados” (1 Pe. 4:8). Quando se ama pra valer, a gente aprende a conviver com as diferenças. Não digo será fácil. Mas é possível. Um exemplo bíblico disso é o casamento entre Ester e Assuero, um rei pagão. Graças a ele, o povo judeu escapou de uma tentativa de extermínio.

Pior do que um não cristão é aquele que “dizendo-se irmão”, com o tempo, revela-se um mau caráter, desonesto, avarento, covarde (1 Co.5:11).

Se você está namorando uma pessoa que não seja cristã, não há razão para se desesperar. Certifique-se de que verdadeiramente a ame a ponto de enfrentar todas as dificuldades que esta relação possa produzir. Não ligue para os julgamentos de quem se acha no direito de apontar o dedo. Talvez seja um frustrado, mal amado, casado com alguém da mesma fé, mas que não tem o mesmo amor e apreço pela vida.

Numa relação de amor o mais importante é encontrar a felicidade na realização do outro. No amor não sobra espaço para o preconceito. Todas as distinções perdem totalmente o sentido diante da supremacia do amor.

Hermes C. Fernandes.

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