Evangélicos sofreram na ditadura militar com um presidente evangélico

O Brasil foi sacudido em suas memórias recentemente. Documentos da agência americana CIA, disponíveis desde 2008, mas que só agora ganharam o destaque merecido ao serem divulgadas por um professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, apontaram que o presidente Ernesto Geisel não só sabia das mortes e torturas no período da ditadura militar no Brasil, como também avocou para si a responsabilidade de deliberar e decidir quem morria e quem vivia.

Presidente ditador Ernesto Geisel.

Alguns ainda tentam desmentir as informações, negar que a ditadura existiu, e falar sobre números que nem de longe indicam o que foi vivido nesse período obscuro da história brasileira, documentado e revelado através de arquivos internacionais e nacionais, revelados pela Comissão da Verdade.

É possível também falar sobre a religião na época, de maioria católica mas com o protestantismo ascendendo em todas as partes do país. Geisel, por exemplo, era evangélico da Igreja Luterana. Segundo reportagem da Carta Capital, produzida pela doutora em ciências da comunicação e integrante do Conselho Mundial das Igrejas, Magali Cunha, o jornal da igreja, Brasil Presbiteriano, anunciava em sua edição de março/abril do ano 1974 a glória que era ter um presidente evangélico: “Um homem probo, honesto, operoso e capaz, deixa o poder e assume o seu lugar outro homem público, com folha de serviço relevante e personalidade definida e, sobretudo isso, um crente evangélico.  […] Nossas orações a Deus para que seu governo seja uma benção para todos os brasileiros de todas as crenças. Adeus Presidente Médici – Benvindo Irmão Geisel”, dizia o texto.

Anos depois, em 1996, esse mesmo homem “probo” disse em entrevista para quem quisesse ouvir, que a tortura era um meio válido para se conservar o poder, durante entrevista para o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas. Será que tais atitudes condizem com o que o evangelho de amor pregado por Cristo defende? A contradição chega a saltar aos olhos.

A Comissão Nacional da Verdade revelou que algumas igrejas foram repreendidas pelo regime autoritário da época, com seminários teológicos, inclusive, sendo fechados. Não era só a filosofia e sociologia, fundamentais para a formação do pensamento crítico, que estavam proibidas. Não estava vetado apenas pensar. Também deveria se combater interpretações de misericórdia e amor que eram pregados em algumas igrejas “subversivas”. A fé genuína foi abafada pela repressão militar.

Os números não mentem, nem puderam se manter escondidos por muito tempo: As perseguições por conta de pessoas evangélicas e católicas que consideravam o regime militar uma ditadura brutal e covarde fizeram com que houvessem muitas prisões arbitrárias (25), expulsões e banimentos (14), torturas (18) que levaram ao desaparecimento forçado (5) e à morte (2), todas com viés religioso, todas com a concordância dos presidentes “evangélicos”, homens que eram vistos como salvadores da pátria.

O fato é que qualquer um pode chegar e dizer que tudo não passa de uma “mentira da esquerda”, “mi mi mi” ou qualquer outra forma de negar a história. Mas ainda que se negue o passado, ele não pode ser silenciado. Muito ainda há de vir a tona, muito ainda há que se discutir sobre uma lei de anistia que perdoa crimes bárbaros cometidos durante a fase mais obscura da história brasileira. Mas mais do que isso, é necessário que muito se discuta sobre candidato fulano ou sicrano ser evangélico/católico, ser “salvador da pátria”, ser a favor da “família”, ter “moral” e ser “conciliador”. Afinal, os erros nos servem mais que os acertos, na medida de nos fazer não repeti-los, nem negá-los. E esse período obscuro só não existiu para quem estava no poder, para quem manchou as mãos de sangue inocente, e que com certeza prestará contas ao Deus em quem depositava sua fé. Afinal, a Deus não se engana, nem se faz enganar. Ele lembra.

Tadeu Ribeiro
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