Igreja faz cerca para expulsar moradores de rua e cria polêmica em Santa Catarina

Grades de alumínio cercam as duas portas laterais e o acesso principal da Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, no Sul do Estado. A cerca foi instalada a pedido dos frequentadores e da comunidade do bairro Humaitá, insatisfeitos com a presença de moradores de rua no local. A barreira impede que eles durmam sob a marquise, e reacende o debate sobre a situação de quem vive pelas calçadas.

O pároco Nilo Buss, responsável pela igreja, procurou o poder público e autoridades ligadas à área da segurança para buscar uma alternativa, mas não teve uma solução efetiva. Isso porque não é permitido forçar as pessoas a saírem do local, e mesmo que o trabalho da assistência social ofereça atendimento e opções ao morador de rua, a decisão é de cada pessoa. Somente em casos em que seja flagrado algum ato ilícito é que a Polícia Militar pode agir.

— Foi uma decisão tomada por lideranças da comunidade, era um local de drogas, prostituição, alcoolismo, desrespeito com as pessoas que vinham à igreja. A pressão foi tanta, famílias tirando os filhos da catequese, que teve que ser feito. Eu sempre fui contra, não é uma solução cristã — disse o padre.

A grade fica fechada de dia – nos horários em que não há programação na igreja –, e durante toda a noite. Um morador da região, que não quis se identificar pois foi ameaçado pelo grupo durante a instalação da cerca, disse que o problema se agravou nos últimos meses, pois o rodízio de pessoas aumentou e o consumo de drogas também. Ele pertence a um dos grupos da igreja, e disse que depois de inúmeras tentativas de ajudar os sem-teto, a solução foi instalar a contenção.

— O pessoal que trabalha aqui perto gostava de vir até a praça, mas parou, pois eles ficam lá bebendo, usando drogas. Quem vai dizer para eles saírem? Hoje (ontem) estenderam os cobertores em cima da cerca da igreja, e ninguém tem coragem de dizer para tirar — lamentou o aposentado.

Para a assistente social Teresinha Maria Gonçalves, mestre em psicologia social e doutora em meio ambiente urbano, o espaço urbano está sendo organizado pela cultura do medo, que é rentável para a indústria de segurança.

O preconceito com o pobre, segundo ela, de que ele pode fazer algum mal, também é reforçado, embora muitas vezes só estejam ali pedindo. A maneira como o morador de rua deve ser abordado pelos profissionais, comenta, também precisa melhorar.

— É preciso reciclar a maneira de fazer as abordagens, conversar mais para perder o medo, é um trabalho permanente. Cercar uma igreja além de anticristão, é anti-humano e ilegal — analisa a professora.

(Diário Catarinense)

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