Suicídio: como prevenir e como lidar com o fato já consumado

suicidio-1628183Sem sombra de dúvida, o suicídio é um dos principais tabus entre os cristãos, tanto católicos, quanto evangélicos. Alguns o classificam como um pecado imperdoável. No outro extremo, há uma tentativa assustadora de glamourização do suicídio, principalmente entre os adolescentes.

Não há como não se chocar com o fato de alguém ter atentado contra sua própria vida. Somos tomados por um misto de sentimentos. Preferimos condenar severamente o ato como uma medida preventiva para que outros não se sintam estimulados a cometê-lo. Mas neste afã, esquecemo-nos da dor dos familiares que acaba por intensificar-se significativamente por achar que a alma do suicida está irremediavelmente condenada ao suplício eterno.

O que dizer a uma avó cuja netinha de apenas 15 aninhos se suicidou com uma overdose de medicamentos depois de haver brigado com o seu namorado? E o que pensar de uma pastora que durante o sepultamento desta menina foi capaz de dizer diante dos familiares que aquela alma teria se perdido para sempre? Quanta falta de sensibilidade!

A primeira vez que lidei com a questão do suicídio, eu tinha apenas nove anos. Estávamos voltando de uma visita a uma tia de minha mãe que morava em São Gonçalo. Durante a travessia entre Niterói e Rio, eu e Maria, a moça que auxiliava minha mãe nos serviços domésticos, estávamos debruçados no parapeito do segundo andar da barca quando flagramos um homem que ameaçava pular no mar. Saímos ao seu encontro e conseguimos dissuadi-lo de cometer o desatino. Apesar de não ter ainda consciência das implicações do ato, ouso dizer que foi o Espírito Santo quem colocou palavras em meus lábios, bem como nos de Maria, para convencer àquele homem do valor de sua vida.

Estou convencido de que a melhor maneira de prevenir o suicídio não é condenando suicidas ao inferno, e sim, nos oferecendo para ouvi-los e acolhê-los em sua luta interna. Há várias razões que levam alguém a desistir de viver. Antes de julgá-lo e sentenciá-lo, deveríamos considerar seus motivos, tentando nos imaginar em seu lugar.

Em meados da década de 90, eu estava num shopping center na zona norte do Rio quando avistei um conhecido que não via há anos. Sem muita disposição para conversar, entrei numa loja e fiquei esperando que ele passasse sem me perceber. Subitamente, uma voz falou ao meu coração: Quem ama não evita. Reconhecendo ser a voz do Espírito, saí do meu esconderijo e fui em sua direção. Ele havia parado e se debruçado sobre a grade de proteção do segundo andar e estava chorando muito. Dirigi-me a ele que, assustado com minha presença, me abraçou e confessou que estava disposto a tirar a sua vida naquele dia. E ali mesmo, no meio de um dos mais movimentados shoppings da cidade, consegui dissuadi-lo do suicídio. Além de ser um rapaz de ótima aparência, ele tinha uma das mais belas vozes que já ouvira em toda a minha vida, porém, sofria de uma deficiência física. Sentindo-se rejeitado por quem ele desejava ser amado, decidiu dar cabo à sua existência.

De todas as experiências que tive envolvendo potenciais suicidas, nenhuma me marcou mais do que a que tive durante a apresentação de um programa de rádio. Dentre os ouvintes que atendi no ar, uma mulher chorava copiosamente, dizendo estar diante de uma janela, pronta a se atirar. Tentei acalmá-la e pedi que me contasse o que estava havendo. Ela me explicou que havia crescido em uma igreja evangélica extremamente legalista, mas que se desviara e se tornara numa garota de programa. Para piorar as coisas, ela se engravidou de uma dos seus clientes, mas não tinha a menor ideia de qual deles era a criança. Foi um momento muito difícil e delicado para mim, pois nossa conversa estava sendo ouvida por milhares de pessoas, e se ela resolvesse pular da janela, eu me sentiria culpado para o resto de minha vida. Com muito custo, consegui dissuadi-la de pular. Insisti que voltasse para igreja, mas ela argumentou dizendo que todas as vezes que visitava sua antiga igreja, as pessoas a olhavam de cima a baixo, julgando-a e condenando-a. Em vez de amor, ela só encontrava juízo. Mesmo sustentando sua família com o dinheiro advindo da prostituição e de filmes pornográficos, sua família a rejeitava. Depois de muitas lágrimas, ela aceitou orar comigo, reconciliando-se com Deus. Após a oração, ela pediu para conversar comigo fora do ar. Contou-me que tinha um contrato com uma produtora internacional de filmes pornôs, e que, se resolvesse abandonar aquela vida, teria que pagar uma alta soma pela quebra de contrato. Procurei mostrar-lhe que todo o dinheiro que aquela vida lhe proporcionava não valia a pena, e que, mesmo sofrendo eventuais prejuízos, nada seria melhor do que voltar-se para Cristo e retornar ao seio de sua família.

Infelizmente, nem sempre fui bem sucedido em minhas abordagens com suicidas em potencial. Não faz muito tempo, um rapaz me procurou pelo in box do facebook. Ele se apresentou como um cristão em crise por causa de sua homossexualidade. Tanto sua família, quanto a igreja que frequentava, o rejeitaram. Seus comentários em meus posts nas redes sociais revelavam-no uma pessoa de extrema sensibilidade e aguçada inteligência. Apesar disso, confessou-me ter tentado suicídio algumas vezes. Disse-me que meus textos o haviam ajudado a desistir de se matar. Até que um dia, percebi a súbita ausência de seus comentários em minhas postagens e resolvi visitar seu perfil para saber o que havia acontecido. Levei um choque. No auge de seus vinte e poucos anos, aquele rapaz desistiu de viver. Foi uma das piores sensações que senti em minha vida, como se eu houvesse falhado. Se eu, sem conhecê-lo pessoalmente, senti-me assim, como não devem ter se sentido seus familiares?

Inteligência e sensibilidade não impedem que alguém cometa tal desatino. Basta lembrar-se de que Santos Dumont, o pai da aviação, tirou a própria vida. Getúlio Vargas, o pai dos pobres, o mais popular presidente que este país já teve, também cometeu suicídio. Kurt Corbain, líder da banda Nirvana, em sua carta de despedida, atribui à sua aguçada sensibilidade a decisão de se matar.

Ainda mais triste é quando o suicídio é cometido por uma criança, como aconteceu recentemente com um menino de apenas doze anos, colega de algumas crianças que frequentam nossa igreja. Cansado de sofrer bullying na escola, tomou chumbinho (veneno de rato) e pôs um saco plástico na cabeça. O que deveríamos dizer aos pais dessa criança? Condená-lo ao inferno vai evitar que outra criança cometa o mesmo ou só agravará o sofrimento de seus familiares e amigos?

E o que a Bíblia diz acerca do suicídio? Haveria algum mandamento específico? A resposta é não. A menos que coloquemos o suicídio no mesmo pacote do “Não matarás”. Entretanto, as Escrituras nos apresentam alguns casos que podem nos auxiliar na compreensão deste ato de desespero.

Em Juízes 9:52-54 lemos sobre Abimeleque que, ferido gravemente por um pedra que lhe foi arremessada por uma mulher, percebendo a iminência da morte, implorou que seu escudeiro lhe tirasse a vida. Tecnicamente não foi um suicídio, mas a decisão de morrer foi dele, ainda que pelas mãos de outro. Neste caso, o suicídio foi motivado por uma questão de honra. Era considerado vergonhoso a um guerreiro morrer pelas mãos de uma mulher. Certas culturas levam muito a sério questões relativas à honra. Não são raras notícias de executivos ou políticos japoneses que se suicidaram envergonhados de sua má gestão ou por terem sido pegos em atos de corrupção.

Em 1 Samuel 31:4 lemos que Saul, gravemente ferido, ordenou que seu escudeiro o matasse. Como não conseguiu fazê-lo, o próprio Saul se lançou sobre sua espada. Diante da cena, o escudeiro também acabou se matando. Em 2 Samuel 17:23, Aitofel, conselheiro de Absalão, se enforcou, amargurado pelo fato de seu senhor ter se recusado a atender seu conselho.

Em 1 Reis 16:18-19, lemos que Zinri, tornou-se rei depois de um golpe de estado. Sem o esperado apoio popular, foi à cidadela do palácio e o incendiou estando dentro dele.

Um dos mais famosos casos de suicídio registrados na Bíblia é o de Sansão (Juízes 16:29-30). Ao derrubar o templo de Dagon, o herói hebreu sabia que morreria juntamente com os seus inimigos. Portanto, foi uma espécie de suicídio heroico. Sansão agiu como os camicazes, os pilotos japoneses da segunda guerra mundial que arremessavam seus aviões contra alvos inimigos sabendo que morreriam também. Algum se atreveria a dizer que Sansão foi para o inferno? Ora, se Deus sabia qual era o propósito de Sansão ao pedir que lhe devolvesse suas forças, por que o atendeu?

Outro caso emblemático é o de Judas, que se enforcou consumido pela culpa após ter traído o seu Mestre.

E finalmente, encontramos nas páginas do registro apostólico o caso do carcereiro que optara pelo suicídio após o terremoto que poderia ter resultado na fuga dos presos sob sua responsabilidade, pois sabia que se fosse acusado de haver facilitado, tanto ele quanto sua família seriam condenados à morte. Graças à intervenção de Paulo, a fuga foi contida, e o carcereiro foi dissuadido de cometer o suicídio. Naquela madrugada, na casa de um pretenso suicida, nascia a igreja na cidade de Filipos. Ele e sua família foram os primeiros a serem batizados (Atos 16:26-28).

Culpa, vergonha, medo, depressão, desespero, são alguns dos ingredientes capazes de levar alguém a atentar contra a própria vida. Em muitos casos, até a química do organismo é comprometida, de modo que um eventual desequilíbrio é capaz de afetar o juízo da pessoa que momentaneamente perde a noção de certo e errado. Naquele fatídico instante, ela não consegue enxergar alternativa se não tirar a própria vida.

Dois dados interessantes é que o maior número de suicídios ocorre entre os ricos e não entre os pobres, e o maior índice se encontra nos países desenvolvidos. Quando estive em Logano, na Suíça, conheci o edifício de onde muitos executivos saltavam com suas maletas 007 e seus ternos Armani, encorajados pela turba que gritava: Pula! Pula! Pula!

Não dá para comparar o caso de um executivo que acaba de perder milhões num negócio arriscado e de alguém que pula de um prédio em chamas, como aconteceu durante os atentados terroristas nas Torres Gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001.

Especialistas apontam vários tipos de suicídio. Há, por exemplo, o suicídio egoísta, resultado do individualismo excessivo que impede a pessoa de se importar com o sofrimento que vai provocar na família e nos amigos. Não se trata de um ato de coragem, mas de covardia. Não resolve o problema, mas deixa a bomba para os que ficarem.

Há o suicídio altruísta, heroico , em que se abre mão da vida por uma causa considerada justa. Paulo se reporta a este tipo de suicídio em 1 Coríntios 13:3: “Ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” Este tipo de suicídio era comum nas sociedades orientais primitivas. Visando o bem da coletividade, a pessoa se entregava a morte. Para poupar a outros, ela abria mão de seu direito de viver.

Há ainda o suicídio fatalista, decorrente do excesso de regulamentação da sociedade sobre o indivíduo. Pelo fato de as paixões serem reprimidas de forma violenta, alguns preferem morrer. Shakespeare trata disso em seu clássico “Romeu e Julieta”. O casal apaixonado, dada a impossibilidade de viver plenamente seu romance, opta pelo suicídio.

Há também casos de pessoas que sofreram rejeição na infância, perderam, quando adultas o interesse pela vida. Outras guardam tanta mágoa no coração que se entregam a uma espécie de suicídio gradual; matam-se à prestação através do consumo de cigarro, bebidas, drogas, etc. Outros praticam um tipo de roleta russa, vivendo desregrada e promiscuamente, sabendo dos riscos de se contrair uma DST. Outras, optam por viver perigosamente, afirmando que só se sentem vivas quando estão próximas da morte.

Num certo sentido, somos todos suicidas, em menor ou maior grau. Todos fazemos coisas que reconhecemos que nos são prejudiciais, mas preferimos correr todos os riscos, mesmo sabendo o quão frágil é a vida. Freud se refere a isso como pulsão de morte. Não seria a isso que Paulo se referia?: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Romanos 7:19). Porém, isso não é desculpa para se viver de maneira inconsequente, flertando com a morte. Jamais nos esqueçamos de que não pertencemos a nós mesmos. Nosso corpo é templo do Espírito Santo, e que, um dia teremos que prestar contas do que fizemos a ele (1 Coríntios 3:16; 6:19).

Concluindo a nossa reflexão, resta saber como devemos reagir diante do suicídio de alguém a quem amamos ou conhecemos? Ou ainda: o que dizer a família que perdeu um ente querido desta forma?

1 – A psicologia e a psiquiatria têm revelado que geralmente o suicídio é resultado de um transtorno emocional, ou mesmo de um desequilíbrio bioquímico associado a um profundo estado de depressão. Se a pessoa está revelando tendências suicidas, além de orar e cobri-la de amor, sugiro que procure ajuda profissional.

2 – A justiça de Deus que é perfeita e leva em consideração o impacto que nossa mente perturbada tenha sobre nós. Há quem nunca tenha tido a disposição de tirar sua vida, mas seja capaz de fazer verdadeiras orações suicidas, como as de Elias e de Jonas. Ambos suplicaram que Deus lhes tirasse a vida depois de obterem um estrondoso sucesso em seus ministérios. Quão complexa a mente humana!

3 – Muitas famílias se sentem culpadas, achando que não fizeram o suficiente para evitar a tragédia. Com a ajuda de Deus pode-se encarar e vencer a culpa, admitindo que o suicida precisava de ajuda profissional que nós mesmos não pudemos proporcionar. Entretanto, estejam atentos aos sinais. Ao menor sinal, busquem ajuda imediatamente. Não acreditem no argumento de que quem ameaça, nunca comete. Promessas e tentativas não visam só chamar a atenção.

Para a família do suicida, digo: Há esperança. Entre a tentativa do suicídio e a morte pode haver um tempo de arrependimento. Mesmo que em milésimos de segundo, alguém pode se arrepender. Entre o décimo andar do edifício até o chão é tempo suficiente para o Espírito Santo trabalhar na consciência de alguém. E ainda que não haja, Deus é justo e misericordioso.

Para quem pensa em tirar sua vida, digo: Não posso ser conivente. Suicídio é um ato covarde, muitas vezes, fruto de excessivo amor próprio. Já que o mundo não lhe dá a importância que julga merecer, ela prefere privá-lo de sua vida. Se tivesse mais amor às pessoas do que a si mesma, pensaria na dor que provocaria. Pense: quantos tentaram e não conseguiram dar cabo de sua própria vida, passando o resto da vida vegetando, dando trabalho aos outros? Não é isso que você quer, é? Então, trate de tirar isso de sua cabeça. Qualquer coisa que faça, pode ser revertida e consertada, menos o suicídio. Trata-se de caminho sem volta. Lembre-se de que “o Senhor é quem tira a vida e a dá. Faz descer a sepultura e faz tornar a subir dela” (1 Samuel 2:6). Portanto, finque seus pés da estrada da vida. Viva e deixe viver.

Hermes C. Fernandes.



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Tadeu Ribeiro

Tadeu Ribeiro é editor-chefe e fundador do Portal do Trono. Advogado, graduado em Direito pela UFCG. Apaixonado por Deus, pela música e pela informação. Um chamado que está sendo atendido, e edificado milhões de vidas no Brasil e no mundo.

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