Quem nunca desenhou na prova ou deixou um bilhetinho para o professor na época da escola? O que muitos consideram apenas uma brincadeira, o professor Demian Sousa, de Filosofia e Sociologia, transformou em um instrumento pedagógico cheio de afeto e criatividade. Atuando há nove anos em colégios particulares de Uberlândia e Araxá, no Triângulo Mineiro, ele não apenas incentiva seus alunos a soltarem a imaginação, como também utiliza essas mensagens como parte do processo de ensino e aprendizado.
Com turmas do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, Demian conta que tudo começou de forma espontânea — até que as interações se tornaram parte da rotina. “Os alunos fazem a prova normalmente, respondem às questões e depois fazem desenhos, geralmente ligados aos conceitos estudados. Já desenharam o ‘deus enganador’ de Descartes, Santo Agostinho e até Sócrates. Eles conseguem associar a criatividade à matéria”, contou ao BHAZ, em celebração ao Dia do Professor, comemorado nesta quarta-feira (15).
Com o tempo, o educador passou a guardar os bilhetinhos e desenhos que recebe — que vão desde easter eggs sobre o conteúdo até mordidas nas folhas de prova. “Uma vez, um aluno disse que o cachorro tinha mordido a avaliação. Outra vez, na questão sobre quem foi Sócrates, o estudante respondeu: ‘Sócrates foi jogador do Corinthians e criador da Democracia Corintiana’. Eu ri demais quando li aquilo”, relembrou, rindo.
Em alguns casos, quando o bilhete é especialmente criativo, o professor dá 0,1 ou 0,2 ponto extra como incentivo simbólico. “Gosto de valorizar respostas inteligentes. Às vezes, eles fazem relações que nem eu tinha pensado ao elaborar a prova. É muito bom ver esse raciocínio sendo construído”, disse.
A arte de ensinar com histórias
Demian revela que seu método de ensino é fortemente baseado no storytelling, técnica que aprendeu com um antigo professor de Antropologia. “Ele usava histórias da própria vida para ensinar. Quando comecei a dar aula, tentei adaptar isso para o ensino médio. Cria vínculo, torna o aprendizado mais afetivo. E as teorias mostram que a gente aprende melhor quando gosta de quem ensina”, explicou.
Para o educador, contar histórias é uma forma eficaz de tornar o aprendizado memorável. “É mais fácil lembrar de uma história do que de um conceito teórico. Além disso, a educação é uma via de mão dupla — a gente ensina, mas também aprende muito com os alunos.”
Com olhar sensível sobre a docência, ele define a escola como um espaço de trocas humanas. “A escola é feita de pessoas. Essas relações permitem que eu ensine, mas também que eu aprenda. Meus alunos me tornaram uma pessoa infinitamente melhor. Eles me ensinaram a enxergar o mundo a partir de mil olhos”, concluiu.