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O que acontece na Ilha de Marajó, no Pará?

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Exploração infantil na Ilha de Marajó choca o país após relato corajoso de artista gospel - Foto: Reprodução

Na última sexta-feira (16/02), durante a semifinal do Dom Reality, o primeiro reality show gospel do Brasil, a cantora Aymeê trouxe à tona uma realidade angustiante que assola a região da Ilha do Marajó, no Pará. Interpretando sua música “Evangelho de Fariseus”, dedicada à ilha, Aymeê emocionou a plateia ao abordar sem rodeios a situação de exploração sexual infantil que aflige a comunidade local.

Em uma letra contundente, a artista não hesitou em criticar a postura de líderes religiosos diante dos acontecimentos na ilha, destacando a vulnerabilidade das crianças. “Enquanto isso, no Marajó, o João desapareceu esperando os ceifeiros da Grande Seara”, cantou Aymeê.

Após sua apresentação, a cantora revelou ainda mais sobre a difícil realidade enfrentada pelas crianças na Ilha do Marajó, onde, segundo seu relato, elas chegam a se prostituir por meros R$ 5 para turistas que visitam a região.

Os jurados reconheceram não apenas o talento de Aymeê, mas também a importância de trazer à tona um tema tão delicado. “O que você tem para falar, muita gente não vai querer ouvir”, comentou um dos jurados.

Rio Laguna, comunidade São José, em Melgaço, na Ilha de Marajó — Foto: Marcelo Lelis/Agência Pará/2018

O QUE ACONTECE NA ILHA DE MARAJÓ?

O relato de Aymeê gerou repercussão nas redes sociais, reabrindo o debate sobre a precariedade da situação na Ilha do Marajó. Em sua fala emocionada, a cantora explicou a gravidade da denúncia contida em sua música:

“Marajó é uma ilha há alguns minutos de Belém, minha terra. E lá, as crianças, lá tem muito tráfico de órgãos, lá é normal. Lá tem pedofilia em nível ‘hard’ e as crianças com 5 anos, quando elas veem um barco vindo de fora com turistas, Marajó é muito turística e as famílias lá são muito carentes, as criancinhas saem em uma canoa, 6,7 anos, e elas se prostituem dentro do barco por cinco reais”, disse a cantora.

Essa não é a primeira vez que a situação na Ilha de Marajó é trazida a público. Em 2017, uma reportagem da Record expôs a triste realidade da exploração infantil na região, mostrando imagens chocantes de crianças sendo exploradas em troca de recursos básicos (confira o vídeo no final desta matéria). Desde então, o assunto tem sido alvo de investigações e debates, com autoridades e figuras públicas manifestando preocupação com a situação.

Em 2022, a ex-ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, também denunciou a exploração na ilha durante um culto evangélico, gerando polêmica e demandando respostas das autoridades. No entanto, a falta de provas levou a pedidos de ação civil pública contra a ministra.

Atualmente, a Ilha de Marajó conta com o Programa Cidadania Marajó, implementado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que visa combater a exploração e o abuso sexual de crianças e adolescentes na região. No entanto, a persistência dos problemas exige um esforço contínuo das autoridades e da sociedade para garantir a proteção das crianças e o fim dessa grave violação de direitos humanos.

DENÚNCIAS DESDE 2006

Autoridades e líderes religiosos têm se manifestado sobre a situação na ilha desde 2006, mas os desafios persistem. Em abril de 2006, o bispo emérito de Marajó, Monsenhor Dom José Luiz Azcona, apresentou uma denúncia formal ao governo federal e à Comissão de Direitos Humanos sobre casos de exploração sexual de adolescentes em Portel, Pará.

Esses casos envolviam uma suposta rede de prostituição infantil na região próxima à Ilha de Marajó. O deputado Luiz Couto, presidente da comissão na época, viajou para o Pará em maio de 2006 para investigar as denúncias, coletando depoimentos de vítimas que acusavam até mesmo vereadores locais de estupro de menores. Os fatos foram imediatamente levados ao conhecimento do Conselho Tutelar.

Esta não foi a primeira vez que Dom Azcona denunciou problemas na região de Marajó. Por cerca de três décadas, ele tem sido uma voz ativa na luta contra a exploração sexual de crianças no arquipélago. Seu ativismo resultou na instalação da CPI da Pedofilia tanto na Assembleia Legislativa do Pará quanto no Congresso Nacional, nos anos de 2009 e 2010, trazendo à tona a gravidade dessas questões.

Em 2015, ele chamou atenção para casos em que crianças se ofereceram a ocupantes de balsas, muitas vezes com o consentimento de suas próprias famílias, gerando uma repercussão nacional.

No entanto, em 2023, a permanência de Dom Azcona na região foi ameaçada quando ele recebeu um pedido da representação diplomática do Vaticano no Brasil para deixar a área. Isso causou uma onda de protestos por parte da população local, que defendia a importância do bispo emérito para a comunidade do Marajó.

Em resposta, os membros da Prelazia do Marajó se reuniram e enviaram uma carta à Nunciatura no Brasil, instância representativa do Vaticano, expressando seu apoio a Dom Azcona e solicitando a revisão da decisão. Após essa mobilização e pressão popular, a decisão do Vaticano foi revista, permitindo que Dom Azcona continuasse seu trabalho na ilha amazônica.

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