Diante do Trono: por quê o grupo caiu tanto no mundo gospel?

O Ministério de Louvor Diante do Trono já foi, por muitos anos, o maior nome da música gospel no Brasil. Foi o responsável por uma verdadeira revolução no cenário evangélico no início dos anos 2000, introduzindo uma nova forma de adoração nas igrejas.

Gravação do álbum “Esperança” que reuniu 1,2 milhão de pessoas em Salvador-BA.

Os números sempre foram impressionantes. Gravações de álbuns com 1, 1,5 e até 2 milhões de pessoas, algo inimaginável nos dias de hoje para qualquer artista de qualquer segmento musical no mundo. CDs que saíam de fábrica com tiragens iniciais de 500 mil cópias, e que rapidamente atingiam 1 milhão de cópias vendidas. Momentos históricos, de ajuntamentos em pontos estratégicos e importantes do país, como a Esplanada dos Ministérios (DF), o Maracanã (RJ), Centro Administrativo de Salvador (BA), Rio Guaíba (RS), Marquês de Sapucaí (RJ), dentre outros. Até programa de TV a nível nacional pela RedeTV! o grupo tinha. O que fez com que toda essa glória desse lugar a um período atual de decadência?

Hoje em dia, com 20 anos de existência, o Diante do Trono não ocupa mais uma posição de destaque como antes no cenário gospel. As músicas raramente são cantadas nas igrejas (salvo as antigas), os álbuns quase não conseguem chegar nem a disco de ouro (antes eram todos diamante), e recebe resistência dentro e fora do segmento evangélico. Além disso, enfrenta dificuldades em manter seus projetos missionários, como o da Índia por exemplo, iniciado no período áureo do grupo. A quê se deve isso? Elenco 5 hipóteses abaixo…

1) A qualidade das composições: A líder do grupo, Ana Paula Valadão, é responsável pela composição de 95% de tudo que o Diante do Trono já gravou. Sempre foi uma compositora de mão cheia. Mas parece que o dom não é o mesmo de outrora. Ao ver as canções atuais, salvo raríssimas exceções, o ouvinte se questiona se foram feitas pela mesma pessoa que compôs clássicos como “Manancial”, “Águas Purificadoras”, “Lugares Altos”, “Esperança”, “Seja o centro”, dentre outras, que até hoje são entoadas em igrejas e que não são difíceis de serem reconhecidas até por quem não é evangélico ou ouvinte de música gospel.

2) A musicalidade do grupo: No início, o Diante do Trono possuía grandes nomes em seu vocal, como André Valadão, Nívea Soares, Mariana Valadão, Helena Tannure, Soraya Gomes, dentre outros, que saíram e deram lugar a uma formação bem mais jovem, com novas influências. Hoje em dia, o grupo, segundo as palavras da própria líder, se resume apenas em Ana Paula Valadão. Outro ponto foi o afastamento da orquestra, muito famosa nos trabalhos do grupo. Ao ouvir músicas dos primeiros trabalhos, é possível identificar, mesmo sem saber, que se trata de uma música do Diante do Trono, nos primeiros 20 segundos de execução, pelo som marcante e característico do ministério, que deu lugar a uma roupagem atual mais pop rock, o que não agrada os fãs mais antigos até hoje. Além da falta que o arranjador instrumental Sérgio Gomes e o arranjador vocal Maxmiliano Moraes fazem, incontestavelmente.

3) As falhas nas estratégias de marketing: A divulgação dos projetos do Diante do Trono não são mais as mesmas. Antigamente, mesmo sem a ajuda da internet e da rapidez das redes sociais, o grupo tinha mais empenho e facilidade em divulgar suas gravações e os lançamentos de seus produtos. Hoje, mesmo com a diversificação da informação, que se tornou bastante ágil, o grupo e seus parceiros não conseguem fazer com que o público conheça de perto o que está sendo preparado ou lançado. Em algumas ocasiões, um álbum mal tinha sido digerido pelo público, e o ministério já estava lá, lançando mais um ou dois projetos. Não há tempo para consumir, não há tempo do público entender a mensagem porque logo em seguida já vinha outro e mais outro, com mensagens diferentes.

4) Mudança de Ana Paula Valadão para os EUA: Após a gravação do álbum “Tua Visão”, em 2009, a líder Ana Paula anunciou que iria deixar o Brasil e passaria a morar um tempo nos Estados Unidos, em Dallas, para acompanhar seu esposo. Ela voltou dois anos depois a morar por aqui, mas ficou por pouco tempo, voltando para Orlando, onde comandará uma filial da Lagoinha por lá. A mudança fez com que houvesse uma certa dificuldade no ministério em ser contratado para eventos e shows. A agenda limitou-se a menos de 20 eventos por ano. No início, mesmo com uma formação extremamente grande (cerca de 50 pessoas), o grupo viajava para diversos cantos do Brasil. E é consenso que as ministrações trazem visibilidade para qualquer cantor ou ministério gospel, pois aproxima dos fieis, e acaba por divulgar as ações e projetos realizados.

5) As polêmicas de Ana Paula Valadão: No início de sua carreira, a líder do Diante do Trono era mais contida e mal dava entrevistas. Tinha um discurso mais pacifista e reservado. Mas aí começou a se envolver em polêmicas. Primeiro com o episódio de 2007 em que imitou um leão no palco, urgindo como tal, e arrancando do público evangélico uma certa resistência sobre a espiritualidade do ato. Anos depois, começou a dar declarações polêmicas, afirmando que pastores não combinavam com os gordinhos, lançando campanhas que diziam que as mulheres deveriam ser belas, recatadas e do lar, e se posicionando contra roupas unissex da C&A, por promoverem, a seu ver, a “ideologia” de gênero. O ano de 2016 foi bastante complicado para a imagem de Ana Paula Valadão e do Diante do Trono, que foram bombardeados de críticas pelos internautas do mundo todo, incluindo alguns ex-fãs.

Outros pontos poderiam ser levantados, mas acredito que estes elencados acima podem ter sido as maiores causas do declínio do maior império musical gospel da América Latina da última década. Há quem acredite que isso esteja perto de mudar, com o Diante do Trono voltando a gravar aqui no Brasil. Há expectativa, inclusive, de que este ano seja feito algum ajuntamento em Brasília (DF), mas nada confirmado oficialmente. O fato é que, mesmo tentando se reinventar, o ministério DT não apenas vive, mas também sobrevive de seu majestoso passado, saudosamente lembrado por seus seguidores e cotidianamente desmoralizado por seus críticos.

E você, o que mais sente falta no grupo? Comente abaixo.

Tadeu Ribeiro
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